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Embora os players do luxo estejam mais otimistas com os primeiros sinais de recuperação da economia, os estudos demonstram que o consumo de artigos de luxo não regressará aos níveis de crescimento registrados nos últimos anos. Os analistas advertem aos grandes grupos que se preparelm para um novo mercado pós-crise.
O varejo de luxo tem sido um dos setores mais atingidos pela recessão mundial, com os clientes adiando cada vez mais as novas compras, gastando menos ou simplesmente optando por marcas com descontos ou alternativas de fast fashion. No entanto, entre os sinais de que o mercado começa a se estabilizar, os varejistas estão sendo advertidos que o mercado de luxo pós-recessão será muito diferente do que era antes.
O anúncio de que a casa de moda italiana Versace vai cortar 350 postos de trabalho para lidar com o abrandamento no consumo de artigos de luxo mostra até onde algumas empresas têm de chegar para sobreviver no setor.
Mas a Versace é apenas a mais recente casa de moda de luxo a ser atingida pela recessão. A Christian Lacroix entrou em administração judicial em maio, após ter apresentado um pedido de proteção à falência. E a casa alemã de moda feminina Escada foi também forçada a pedir a proteção à falência em agosto, quando uma última tentativa de reestruturar as suas finanças não conseguiu encontrar apoio junto aos acionistas.
Os problemas enfrentados pelo setor são destacados num relatório recente da consultora Bain & Company, que prevê este ano uma quebra de 11% nas vendas de vestuário de luxo a nível mundial. Não surpreendentemente, artigos em pele, calçado e acessórios revelam-se mais estáveis, porque permitem, de forma um pouco mais econômica, que os consumidores permaneçam fiéis às suas marcas de luxo favoritas.
No geral, porém, a Bain antecipa, para 2009, uma diminuição de 8% nas vendas mundiais da indústria de luxo, que deverão ficar nos 153 milhões de euros.
Claudia D'Arpizio, analista da Bain e especialista na indústria mundial de bens de luxo, considera que a forte procura de artigos de luxo dos consumidores chineses vai ajudar o setor a retomar o crescimento em 2010. Mas destaca que a recuperação total não é provável até 2011, altura em que a indústria deverá crescer 4,2%.
Embora as pequenas empresas familiares estejam entre as mais afetadas, alguns dos maiores conglomerados de luxo já sentem os primeiros sinais da estabilização da economia mundial. A LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton), o maior grupo mundial de artigos de luxo, registrou um volume de negócios praticamente estagnado nos primeiros nove meses de 2009, mas declarou que as perspectivas são animadoras, já que a performance da empresa melhorou à medida que o ano foi avançando. O grupo francês revelou ainda que muito do sucesso na sua unidade de moda e artigos em pele – onde o volume de negócios cresceu 7% – ficou a dever ao sucesso das suas grandes marcas de luxo, como a Louis Vuitton.
Da mesma forma, a PPR, que detém a marca Gucci, registou uma quebra de 8% nas vendas do terceiro trimestre, para os 4,6 mil milhões de euros, com os varejistas a reduzirem os seus stocks devido ao abrandamento do consumo, mas ainda assim ressalvou a resiliência da sua rede de lojas próprias.
No entanto, apesar das empresas estarem se preparando atualmente para um aumento nas vendas de artigos de luxo, um especialista do setor prevê a retomada apenas para os próximos dois a cinco anos.
Na sua intervenção na conferência Luxury Interactive, em Nova Iorque, no início deste ano, Danziger referiu que «por causa da recessão, os consumidores ricos estão a reavaliar e a restabelecer as prioridades nas suas vidas. Isto é uma má notícia para os atores do luxo, alguns dos quais mantêm a ilusão de que a atual recessão é apenas um abrandamento temporário de um mercado que de outra forma estaria em crescimento». A especialista acrescentou ainda que os consumidores abastados estão a começar a fazer perguntas às marcas de luxo que antes apoiavam e essas marcas, muitas vezes, não têm respostas fortes e significativas para validar a compra. «O novo padrão de normalidade no mercado de luxo estará relacionado com a percepção de novos valores para os clientes de luxo, que controlam agora as suas carteiras», explicou Danziger.
As más notícias para as empresas de luxo continuaram na mais recente edição do Luxury Consumption Index (LCI) da Unity Marketing. Embora concorde que os consumidores ricos gastaram mais no terceiro trimestre de 2009 do que no segundo trimestre, o ILC constata também uma enorme diferença de atitude entre os consumidores ultra-ricos e aqueles com um nível de rendimentos inferior.
«Muitos consumidores abastados aumentaram a procura no terceiro trimestre», explica Danziger, embora continue a advertir que «o consumo forte no luxo pode não continuar nos trimestres subsequentes. O acentuado aumento no consumo de luxo foi impulsionado principalmente pelo aumento da despesa e da participação no mercado de luxo daqueles com níveis de rendimentos mais elevados (250 mil dólares e acima). Os consumidores ricos com rendimentos mais baixos (entre 100 mil e 149.999 dólares) mantiveram-se relutantes em fazer compras ao nível do luxo».
Estas conclusões são a confirmação de que o mercado de luxo na pós-recessão será muito diferente do que se conheceu antes.
