Produção no Brasil deveria ser verticalizada

Em uma breve palestra de 15 minutos, o jornalista italiano especializado em moda Peppe Orrú conseguiu sintetizar a importância do Brasil voltar seu olhar para dentro de si e buscar referências em sua história para criar um produto que contenha o DNA brasileiro.


O jornalista italiano Orrú no meio dos outros palestrantes, Mauro Slomp e Marcia Travessoni. Foto: Davi Magalhães



“Hoje o Brasil tem vários embaixadores da moda no exterior, como a modelo Gisele Bündchen, a marca Havaianas e o estilista Carlos Miele. Mas eles são apenas a ponta do iceberg. O Brasil é um país fantástico em termos de música, de arte, e agora, também, de moda. Vocês estão sentados em uma mina de ouro”, salientou o jornalista que escreve para revistas do porte da Vogue Itália e Collezione.

Convidado a participar do Dragão Fashion pela primeira vez, ele se diz positivamente surpreendido com a riqueza cultural do país e acredita no potencial que se revela no horizonte para a indústria da moda. Sua única ressalva é simples: “Guardem toda esta tradição de ser brasileiro, pois esta é a alma de vocês, e é isso que o mercado externo quer. Olhem para fora para buscar inspirações em outros países, mas nunca se esqueçam do próprio Brasil”.

Como exemplo de como a imagem de uma região pode ser trabalhada, o jornalista citou a recente publicidade da Dolce & Gabbana. A cantora Madonna aparece como se fosse integrante da máfia siciliana, berço da marca. A grife utilizou o clichê de que “na Sicília todos pertencem à máfia” para inverter os papéis: em vez de uma referência pejorativa, mostrou um lado glamuroso e chique com a imagem de Madonna, que representa luxo e ostentação.

Made in Brasil
Um dos conselhos dados pelo especialista em moda foi o de investir em uma cadeia produtiva vertical, uma vez que o Brasil é rico em matérias-primas, tem mão de obra barata e designers de qualidade. “Ao manter toda a confecção em solo nacional, vocês podem ter uma peça 100% brasileira, o que é visto como valor agregado no mercado estrangeiro”.

Peppe Orrú tocou também na questão de saber se adaptar frente aos novos desafios deste setor. A cidade de Hong Kong, por exemplo, passou de centro produtor de confecção para um centro de design de produtos. Com a ascensão da China e sua mão d eobra barata, a maior parte das empresas migraram suas produções a estes mercados. Hong Kong, sem condições de competir com a indústria chinesa, trocou de foco e passou a exportar design a estas empresas, mantendo seus clientes, mas oferecendo um novo serviço.

“Como é possível que uma marca como a Havaianas faça tanto sucesso em todo o mundo vendendo chinelos de borracha? Se ela foi capaz de fazê-lo, tenho certeza que muitas outras empresas também o terão. Hoje, a moda beachwear produzida no Brasil é uma ‘Bíblia’ para o mundo. O Brasil é o palco do mundo. Vocês têm muito trabalho pela frente e uma grande responsabilidade sob os ombros, mas vocês têm capacidade para isso”, finaliza Peppe Orrú.

A jornalista foi convidada a cobrir o evento pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, por meio do programa TexBrasil.



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